Follow by Email

domingo, 25 de julho de 2010

Gatos? Claro... mas por que de raça?





Todos conhecemos esse ditado "De noite, todos os gatos são pardos". Mas o que esse ditado quer dizer? Exatamente isso, que no escuro não se pode diferenciar a cor de um gato, se ele é preto, branco, amarelo, siamês de olhos azuis ou vira-lata malhado. No escuro não se pode distinguir a cor e, com frequência, a raça de um gato. De noite todos os gatos são marrons e pronto.
Os critérios raciais não deveriam ser utilizados para a escolha de uma companhia animal, pelos mesmos motivos que não escolhemos nossos amigos com base em critérios raciais, cor da pele, cor dos olhos, etc. Essas idéias foram bastante defendidas no texto "Você faz questão de um cão de raça? Pense duas vezes . . .", mas creio que elas fazem ainda mais sentido no caso de gatos.
Ao contrário dos gatos, saber a qual raça um cão pertence significa saber que ele pode ser pequeno como um chiwawa ou grande como um dogue-alemão, que será peludo como um sheep-dog ou pelado como um fox paulistinha, que será ativo como um whippet ou bonachão como um basset hound. Gatos, por outro lado, são relativamente homogêneos, diferindo principalmente em relação à pelagem.
A explicação para essa menor variabilidade de formas entre os gatos em relação aos cães encontra-se em um fato bastante simples. Conforme explicitado no texto anterior "Você faz questão de um cão de raça? Pense duas vezes . . .", as diferentes raças de cães evoluíram ao longo de milhares de anos para desempenharem trabalhos para o ser humano.
Outros animais domesticados precisavam ser selecionados para produzir mais carne, mais leite, mais lã . . . Gatos, porém, jamais foram utilizados senão que como animais de estimação e caçadores de ratos. Ao contrário dos cães e outros animais, gatos jamais se tornaram animais 100% domesticados, preservando muito mais de sua independência e características selvagens.
A domesticação do gato
A domesticação do gato ocorreu no Oriente Médio, mais precisamente no Crescente Fértil, entre o que hoje são o Iraque, a Síria e Israel, por volta de 10 - 9 mil anos atrás. Sua domesticação está associada ao início da agricultura. O armazenamento de grãos atraía ratos, que por sua vez atraiam predadores, entre eles uma espécie de gato selvagem, o Felis silvestris lybica. Os humanos, percebendo o benefício de manter esses predadores próximos aos silos, em um primeiro momento deixaram de afugentá-los, depois passaram a alimentá-los e então estes se tornaram menos ariscos ao contato com seres humanos.
Cinco mil anos após temos indícios da real domesticação dos gatos. No antigo Egito, os gatos deixam a condição de animais sinantrópicos e passam a ser comensais, coabitando efetivamente e gozando da estima dos seres humanos. No antigo Egito gatos tornaram-se divindades (a Deusa Bastet), havendo leis específicas que proibiam desrespeitá-los ou exportá-los para fora do império.
Embora essa proibição, gatos deixaram o Egito em navios fenícios, especialmente devido à sua utilização como caçadores de ratos. Assim, eles se espalharam pelo Mediterrâneo e, mais tarde, pela Europa. Há quase 2.500 anos gatos também foram levados para o Extremo Oriente e, devido à inexistência de espécies de gatos selvagens com os quais pudessem se cruzar nesses locais, sofreram isolamento reprodutivo, dando origem a novas linhagens de animais (gatos siameses, gatos persas, etc.).
Apesar da variabilidade surgida com os sucessivos cruzamentos realizados em todo o mundo, o que levou ao surgimento de linhagens hoje chamadas "raças", a verdade é que o nosso gato doméstico (Felis catus) não difere significativamente de seu precursor, o gato selvagem (Felis silvestris lybica). Ambas as espécies se cruzam entre si e sequer podem ser distinguidas geneticamente.



O que são gatos de raça?
Como no caso das raças humanas e das raças caninas, não há uma sustentação científica para o conceito de raças de gatos. Apenas cerca de uma dúzia de genes é responsável pelas diferenças na cor, comprimento e textura dos pelos, assim como por outras características mais sutis. Basicamente é isso o que permite distinguir uma linhagem de gatos de outras linhagens.
O que hoje são consideradas raças de gatos são, na verdade, linhagens de gatos artificialmente categorizadas em animais de pêlo longo, de pêlo curto e de pêlo ralo. Animais de pelagem lisa, de pelagem ondulada, de pelagem intermediária, de olhos castanhos, verdes, azuis, enfim, não são realmente raças, mas padrões de coloração e textura de tegumento.
Atualmente reconhece-se entre 60 e 250 diferentes raças de gatos, dependendo da sociedade felinofílica em questão. A maior parte dessas raças foi desenvolvidas a partir do século XIX, mediante o cruzamento aleatório ou seletivo de diferentes gatos, em sua maioria gatos sem raça definida com traços específicos, de modo a destacar as características consideradas desejáveis.
Essas características, porém, não dizem respeito a atributos que tornam a vida do animal melhor, senão que são atributos externos que quanto muito servem para selecionar animais diferentes e assim satisfazer o ego de seus proprietários em possuir animais mais ou menos peludos, de determinada cor de olho, etc.
Exceto por uma acentuada aparência externa, nada distingue uma "raça" de gatos da outra, e nada distingue um gato de raça de um gato sem raça. Uma pessoa que tenha em mãos um livro de raças de gatos não terá dificuldade em perceber que todos os gatos sem raça que ela conhece se encaixam no perfil de alguma das raças de gatos ali expostas.
A diferença básica entre gatos considerados sem raça e gatos considerados de raça está, então, na maior variabilidade genética presente nos gatos sem raça, o que possibilita que mesmo que um deles se cruze com um outro gato com aparência semelhante á sua, parte da ninhada não se pareça em nada com os pais.
No caso de gatos de raça, por serem resultado de sucessivos cruzamentos entre gatos com a mesma aparência, por muitas gerações, a possibilidade de que alguns filhotes da ninhada não se pareçam com os pais é menor.


Desvantagens da seleção genética de gatos
Conforme escrito acima, não houve até o século XIX uma preocupação humana em realizar cruzamentos seletivos de gatos. Mesmo os antigos egípcios, que popularizaram a criação de gatos a ponto de transformá-los em divindades, aparentemente não possuíam variantes da espécie, até porque traços diferentes provavelmente não haviam ainda surgido. Todos os gatos de então eram cinzas tigrados, como a espécie selvagem da qual derivaram.
No entanto, a partir do século XIX, começou-se, especialmente nas Ilhas Britânicas, a realizar o cruzamentos planejado de gatos de forma a acentuar-se características físicas diferentes. Tais cruzamentos não tinham outro motivo senão satisfazer o ego de proprietários que se rejubilavam em possuir animais diferentes do que normalmente se encontrava. Em 1871 foi realizada a primeira exposição de gatos, em Londres, onde linhagens como as hoje conhecidas persa e siamesa foram apresentadas ao público europeu.
A existência dessas linhagens, porém, não se constitui em nenhuma variabilidade genética. Em verdade, poucas mutações genéticas podem ser responsáveis por mudanças em padrões de pelagem, e pelo surgimento de linhagens de gatos malhados, com pelo mais longo, etc. A variabilidade não está no aspecto externo que nos permite diferenciar raças de gatos, mas dentro das populações que mantém-se cruzando sem pressão da criação seletiva. As chamadas "raças puras', portanto, contribuem pela menor variabilidade genética dos gatos.
Mesmo antes de havermos conhecidos os fundamentos básicos da genética mendeliana, o ser humano sabia, de maneira empírica, que o cruzamento de animais aparentados aumentava as chances de obtenção de filhotes com defeitos de nascença ou com saúde debilitada. Isso levava a que o camponês evitasse cruzar pais com filhos, irmãos com irmãos.
Conhecemos hoje os motivos para evitarmos endocruzamentos. Quando animais aparentados se cruzam entre si, genes raros que seriam eliminados pela seleção natural acabam sendo preservados. Populações homogêneas geneticamente estão mais sujeitas a serem exterminadas por uma doença do que populações mais diversificadas.
Populações mais diversificadas escondem genes deletérios recessivos a ponto deles raramente se manifestarem na população. A natureza favorece as populações geneticamente heterogêneas. Mas quando a variabilidade genética é pequena e os animais se cruzam apenas entre si, então surgem as doenças.
Podemos dizer que todos os gatos siameses, persas, sagrados da Birmânia, devon rex, angorás, bombays, sphynx são parentes próximos entre si e existe pouca variabilidade genética dentro dessas populações de gatos ditas de "raça pura".
As consequências dessa baixa variabilidade genética dentro das raças felinas é a grande ocorrência de defeitos congênitos (nascimento de animais com defeitos de formação), a manifestação de doenças e a baixa longevidade.
Existem mais de 150 doenças genéticas conhecidas nos gatos, todas elas associadas a genes recessivos que se manifestam com maior facilidade em animais com baixa variabilidade genética.
Apenas para exemplificação, o gato siamês, raça popular cuja linhagem mais antiga remonta à Tailândia, provavelmente ao século 14, possui uma enorme lista de doenças congênitas. Esses gatos sofrem, com maior incidência, de doenças como asma, tumores de mamas, astenia cutânea, hipomotilidade esofágica, mastocitomas cutâneos, hipotricose, glaucomas, lesões cervicais, displasia na bacia, síndrome hiperestésica felina, alopecia endócrina felina, adenocarcinomas no intestino delgado, mucopolisacaridose, mucopolisacaridose VI, gangliosidose, diversos defeitos cardíacos congênitos, fibroelastose endocardíaca primária, estrabismo, vesgueira, nistagmo, esfingomielinose, hidrocefalia, ceratite crônica degenerativa, amiloidose hepática, distócia, hiperlipemia familiar, gengivite-periodontite juvenil felina e porfiria.
Gatos persas, também bastante populares, sofrem de uma variedade de problemas de saúde, muitos deles de origem genética tais como manosidose, seborréia, doença renal policística (PKD), síndrome de Chediak-Higashi, anquilobléfaro congênito, entrópio, epífora congênita, glaucoma primário, pseudocistos periféricos, luxação patelar, displasia na bacia, sequestro de córnea, atrofia retinal progressiva, distócia e gengivite hiperplásica juvenil, entre outras doenças.
O gato sagrado da Birmânia remonta aos gatos criados nos templos budistas daquele país. Todos os gatos sagrados da Birmânia hoje conhecidos descendem de um único exemplar trazido para a Europa na década de 1920 e cruzado com um gato siamês. Esses animais com frequência sofrem de cardiomiopatia hipertrófica, mal progressivo e hereditário que afeta gatos em geral. Caracteriza-se pelo espessamento da parede do ventrículo esquerdo e decorrente mau funcionamento do coração. Os sintomas são batimento cardíaco irregular, apatia, dificuldade para respirar e aumento da frequência respiratória. Em certos casos, depressão, intolerância a exercícios e paralisia das patas traseiras. Há pacientes assintomáticos. Suas consequências são edema pulmonar, tromboembolia sistêmica (coágulos de sangue) arritmia cardíaca, desmaio, arroxeamento de mucosas e morte súbita. Além disso, esses animais apresentam, com maior frequência, dermóide epibulbar nos olhos, displasia da bacia, azotemia (elevação de nitrogênio no sangue), axonoplastia distal e encefalomielopatia, peritonite infecciosa felina (PIF), anomalias na granulação de neutrófilos, cálculos renais e tromboembolia.
O gato Himalaia, originado do cruzamento de gatos de linhagem persa, siameses e em alguns casos sagrados da Birmânia, por volta de 1930, desenvolve com frequência as mesmas doenças dos gatos persas. As principais doenças que incidem nessa linhagem são; astenia cutânea, doença renal policística (PKD), catarata, alopecia, psicogênica, sequestro corneal e peritonite infecciosa felina (PIF). O gato tonquinês, originado do cruzamento entre gatos siameses e sagrados da Birmânia na primeira metade do século XX, com frequência sofrem de cálculos renais, infecções do trato respiratório superior e apresentam grande sensibilidade às vacinas.
O gato burmês, trazido para a Europa do sudeste asiático no inicio do século XX e lá misturado com outras raças, com frequência sofrem de síndrome do olho seco, erosão da cartilagem da terceira pálpebra, má-formação médio-facial letal, desmóide ocular, fibroelastose endocardial primária, meningoencefalocele, miopatia hipocalêmica, diabetes, polimorfismo restrito de genes de antígeno de leucócito felino DRB, glaucomas e síndrome de peito plano em filhotes.
O maine coon, gato gigante originário dos EUA, é uma raça estabelecida por volta de 1860. Apesar de serem gatos rústicos e bem tolerantes a variações de clima, sofrem com frequência de displasia na bacia, cardiomiopatia hipertrófica, luxação patelar, doença renal policística (PKD), gengivite-periodontite juvenil felina, pectus excavatum e deficiência de alfa 2 laminina, o que causa distrofia muscular e miopatias. Outro gato de porte mais avantajado, o ragdoll, desenvolvido também nos EUA entre as década de 1950 e 1960, com frequência sofrem de cardiomiopatia hipertrófica, mucopolissacaridose, peritonite infecciosa felina (PIF) e tromboembolia.
A raça conhecida como gato abissínio, na verdade é de origem indiana. Sua criação iniciou-se em 1860, a partir de alguns poucos animais levados para a Europa. São animais que apresentam, com frequência, atrofia, degeneração progressiva ou displasia de retina, sequestro corneal, alopécia psicogênica, luxação patelar, amiloidose renal, doenças por armazenamento de lisossomos, peritonite infecciosa felina (PIF), gengivite hiperplástica, deficiência de piruvato quinase e tromboembolia.
A linhagem de gatos conhecida como raça somali é na verdade uma variante pelo longo de gatos abissínios com pedigree. Todos os exemplares hoje reconhecidos como pertencentes a essa raça derivam de um mesmo casal de abissinios. Esses animais com frequência apresentam problemas de gengivite, atrofia retinal progressiva e deficiência de piruvato quinase. O cruzamento entre gatos abissínios e siameses em 1964 deu origem à raça ocicat, com padrão de pelagem semelhante ao da onça. Esses animais com frequência apresentam pectus excavatum.
As chamadas raças pelo curto são, em verdade, os gatos mais comuns presentes em cada localidade derivadas não do cruzamento seletivo, mas da mistura de linhagens nas ruas das cidades. Entre essas raças temos o gato pelo curto inglês, pelo curto americano, pelo curto europeu, pelo curto brasileiro. Apesar de não se tratar de populações geneticamente homogêneas, há doenças que incidem com maior severidade nessas populações. Por exemplo, o gato pelo curto inglês, descendente provável dos gatos que foram introduzidos pelos romanos na Grã-Bretanha, tem maior propensão para apresentar eritrólise neonatal e hemofilia B. O pelo curto americano tem maior propensão a apresentar doença renal policística (PKD) e cardiomiopatia hipertrófica.
O gato chartreaux, raça originária do Oriente Médio trazida pelos Cruzados para a França, sofreu grande seleção artificial na década de 1930, sendo que os exemplares dessa raça padecem, com frequência, de displasia da bacia e luxação patelar.
O cornish Rex, raça originária da Inglaterra cuja principal característica são os pelos ondulados e crespos. Todos os animais hoje reconhecidos como pertencentes à raça derivam de um único exemplar isolado na Cornualha em 1950. Animais dessa raça com frequência sofrem de hipotiroidismo, hipotricose e peritonite infecciosa felina (PIF).
O devon rex, raça surgida não por cruzamentos seletivos, mas por mutações aleatórias, foram observados pela primeira vez em 1950, na Inglaterra, e vem sendo desde então criados. Caracterizam-se por possuir pelo bastante curto e enrolado, o que lhe confere aspecto impressionante. Essa raça normalmente apresenta animais com displasia na bacia, hipotricose, espasticidade, hipotiroidismo, luxação patelar, síndrome de peito plano em filhotes, coagulação anormal do sangue e outras disfuncionalidades sanguíneas, miopatia autossômica recessiva, coagulopatia vitamina K dependente e distócia.
O sphynx, apesar de parecer fruto de manipulações genéticas, não o é. Trata-se de animal resultado de mutação genética recessiva e espontânea, denominada alopecia hereditária. Os animais hoje reconhecidos como pertencentes à raça derivam de uma ninhada nascida em 1966 no Canadá. Europeus e norte americanos se interessaram por esses gatos devido ao seu aspecto pouco comum e começaram a criá-lo, cruzando-os com o devon rex, o cornish rex e pelo curto americano. Desses cruzamentos nasceram muitos animais com doenças genéticas tais como espasticidade.
O gato anão, também chamado munchkin, na verdade não é uma raça anã de gatos, mas de gatos de tamanho normal com pernas curtas. A ocorrência de gatos de pernas curtas é natural, dado a genes autossômicos dominantes. No entanto, sua criação e seleção para expressão dessa característica só se iniciou em 1983, sendo todos os munchkin reconhecidos como da raça derivados de uma única fêmea chamada Blackberry. Devido a essas pernas curtas esses animais apresentam com frequência lordose. Esses animais também são mais suscetíveis a sofrer de síndrome de peito plano em filhotes e pectus excavatum.
O gato korat, uma das raças mais antigas do mundo, é originário da Tailândia. Foi porém introduzido no ocidente com apenas alguns poucos exemplares que foram cruzados entre si, resultando em animais com pouca variabilidade genética. Esses animais com frequência apresentam ganglidiose e doença de Sandhoff (ganglidiose GM2).
Os gatos da raça manx originaram-se provavelmente de gatos que sobreviveram ao naufrágio de galeões espanhóis em 1588, havendo conseguido nadar até a Ilha de Man (Grã Bretanha). São gatos cujo traço mais característico é a ausência de cauda, embora alguns exemplares apresentem caudas de tamanhos variados. Outra característica dessa linhagem é o andar saltitante derivado de seu dorso arqueado, devido à má formação da espinha (espinha bifida e disgenesia sacrocaudal). Também, seu ânus mais estreito (atresia anal) os leva a com frequência sofrer de prisão de ventre, prolapso retal e incontinência fecal. Essa raça com frequência apresenta distrofia da córnea.
O gato norueguês da floresta é provavelmente resultado do cruzamento de gatos domésticos levados para a Escandinávia pelos vikings a partir da Grã-Bretanha com gatos selvagens locais. Sua criação ficou restrita à noruega até a metade do século XX, quando alguns exemplares foram levados para outras partes da Europa. Não se sabe ao certo quantos animais deram origem às linhagens consideradas raça pura, porém, esses animais com frequência sofrem de doença de armazenamento de glicogênio tipo IV. Além disso, sua criação resulta em sofrimento para os animais, visto se tratar de animais adaptados ao frio e a ambientes abertos.
A raça de gatos scottish fold originou-se a partir de uma única fêmea nascida na Escócia em 1961. Ela se caracterizava por possuir as orelhas curtas ou dobradas (fold significa dobra, prega), devido a um gene dominante. São gatos longevos (15 anos) porém que apresentam grande suscetibilidade a doença renal policística (PKD), cardiomiopatia, osteocondrodisplasia, má formação de estruturas ósseas (anomalias nas vértebras) e artrite, resultando em dores severas e incapacitantes nas juntas, perda de mobilidade e endurecimento das cartilagens, além de prognastismo.
A raça de gatos bengal foi originada em 1963 mediante o cruzamento de um gato doméstico com um gato leopardo asiático (Prionailurus bengalensis), produzindo uma prole de animais férteis. A intenção era obter animais com pelagem semelhante ao gato leopardo que fossem mais afáveis ao ser humano. Todos os gatos bengals que existem resultam de alguns poucos hibridos nascidos desses cruzamentos iniciais, sendo que esses animais apresentam uma série de doenças genéticas, entre elas: Entrópio, alopecia psicogênica, atrofia progressiva de retina, neuropatia distal, cardiomiopatia hipertrófica (HCM) e peritonite infecciosa felina (PIF). Há ainda uma doença que se caracteriza por um ressecamento da pele do nariz conhecida como Bengal Nose.
Há outros híbridos de gatos domésticos com gatos selvagens: O caracat, híbrido de gatos abissínios com o lince-do-deserto (Caracal caracal),surgido em 2007. O savannah, hibrido do serval africano (Leptailurus serval) com gatos domésticos (bengal, entre outros), surgiu pela primeira vez em 1986, mas por apresentar problemas de fertilidade precisou ser "reinventado" novamente em 1994. O chausie é resultado de cruzamentos de gato da selva africano (Felis chaus) com gatos abissínios e de outras linhagens, entre as décadas de 1960 e 1970.
É provável que grande parte dos animais que nasçam de tais hibridizações ou do cruzamento entre animais híbridos apresentem problemas congênitos e más formações, porém, não encontramos estatísticas referentes a isso.


O preço da beleza
As pessoas buscam pelo diferente em padrões de gatos como buscam pelo diferente em objetos de decoração. No entanto, diferentes de objetos, gatos sofrem quando nascem ou vivem portando genes que não deveriam possuir. Os mesmos genes que dizem que gatos terão pernas curtas como a do munchkin ou longas como a do bengal, pelos longos como do persa ou curtos como o do sphynx, caudas longas como a do himalaio ou caudas curtas como a do manx e orelhas curtas como a do scottish fold, dizem que eles terão dificuldades em suas vidas.
A única explicação para que as pessoas tenham tal preocupação em preservar genes raros e muitas vezes deletérios em populações animais é que a preocupação nunca é de fato com o bem do animal. Uma pessoa que ama gatos pode ter um gato, ela não precisa de um sagrado da Birmânia ou de um devon rex. No entanto pessoas que fazem questão de gatos de raça não amam gatos, elas amam o estatus de possuir algo diferente como um animal com pedigree. Ora, elas que comprem um carro importado.
Quando um casal procura aconselhamento genético ele não quer selecionar filhos que nasçam com nanismo, hidrocefalia, albinismo, espinha bífida ou seis dedos na mão porque quando planejamos nossa família pensamos no bem das crianças e não em ter filhos que se destaquem na multidão. Selecionar gatos para que tenham pelagem bluepoint e encantadores olhos azuis, não se importando com seu estrabismo, é mesquinho, egoísta e fútil.
Gatis e pet shops são atividades comerciais que visam unicamente o lucro, e não o bem dos animais. Eles não pensarão duas vezes antes de cruzar animais aparentados, fazer fêmeas engravidarem seguidamente para produzirem uma vasta prole e descartarem no lixo filhotes que nasçam sem atender aos critérios raciais estipulados pelos clubes de felinofília. Clubes de felinofília e exposições de gatos, igualmente, são atividades vazias e sem nenhuma profundidade, voltadas para satisfazer o ego de pessoas fúteis que não amam realmente seus gatos.
Milhares de gatos vivem atualmente nas ruas das grandes cidades, muitos deles estão aprisionados em centros de controle de zoonoses e entidades que recolhem animais de rua. Pessoas que realmente amam animais não precisam gastar comprando animais, elas podem adquirir gratuitamente um animal de um desses abrigos, já castrado, e certamente estarão fazendo um bem para o animal.



Sérgio Greif - sergio_greif@yahoo.com 
Biólogo, mestre em Alimentos e Nutrição, membro fundador da Sociedade Vegana, autor de livros, artigos e ensaios referentes à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação, à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano e aos direitos animais, entre outros temas.






fonte: http://www.olharanimal.net/artigos/60-etica/37-gatos-claro-mas-por-que-de-raca