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sábado, 29 de setembro de 2012

Temos este direito?

Este texto é de 2001 mas continua atual em seus questionamentos



Temos este direito?


A fronteira tênue entre ciência e crueldade na rotina dos laboratórios esquenta no mundo todo o debate sobre a vivisecção.

Rodrigo Vergara (rvergara@abril.com.br)

Os alunos que ingressaram este ano no curso de medicina da Universidade de São Paulo (USP) verão menos sangue que seus veteranos durante a estada na faculdade. Pela primeira vez, a universidade vai abolir o sacrifício de cães em aulas sobre “o efeito de drogas na função cardiorrespiratória”. Nessa disciplina, os estudantes testemunham os efeitos de várias substâncias sobre os batimentos cardíacos e a freqüência respiratória. Agora, em vez de verem essas reações no tórax aberto de um animal anestesiado, que depois será morto, os alunos aprenderão com uma simulação em computador. Mudança semelhante ocorreu há um ano nas aulas de técnica cirúrgica na USP. Em vez de treinar sutura em coelhos, que depois eram sacrificados, os alunos passaram a “costurar” cães e gatos mortos naturalmente. As duas mudanças, ao que tudo indica, são definitivas.

Elas fazem parte de um movimento mundial de combate ao uso de animais em laboratórios, não só no ensino, mas também na pesquisa biomédica e para testar artigos de limpeza e cosméticos.

As mudanças são incontáveis e quase diárias mundo afora: de fabricantes de cosméticos que anunciam que não vão mais testar seus produtos em coelhos a governos que aprovam leis mais restritivas aos testes. No final do ano passado, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países desenvolvidos, anunciou sua intenção de abolir o DL50, um teste de toxicidade em que 20 ratos recebem doses crescentes da substância testada até dez deles morrerem. A decisão significa que produtos testados com o DL50 serão barrados nesses países. Em tempo: as alternativas para o DL50 usam, no máximo, nove animais. Ou seja: o sacrifício animal diminui, mas continua existindo.

Segundo Alan Goldberg, diretor do Centro de Alternativas para Testes em Animais da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, tido como uma autoridade no assunto, “desde 1976 o uso de animais usados em pesquisa biomédica caiu 15% no mundo todo”. Ainda assim, estima-se que a ciência sacrifique 40 milhões de animais no mundo por ano.

Para muita gente, no entanto, a redução está longe de resolver a questão. O problema é: podemos utilizar os animais para pesquisa? Os grupos de proteção dos direitos dos animais vêem na pesquisa com cobaias, conhecida como vivissecção – que significa “cortar vivo” –, dois enormes calcanhares-de-aquiles: o primeiro é que os testes seriam inúteis. Depois, mesmo que eles fossem úteis ou, mais que isso, vitais, ainda assim não teríamos o direito de fazê-los.

O principal argumento antivivissecção, que prega sua absoluta inutilidade, está expresso nas palavras do médico inglês Robert Sharpe, autor de Science on Trial (Ciência em julgamento, inédito no Brasil): “Homens e animais têm organismos e reações bioquímicas diferentes. Se um estudo com hamsters achar a cura do câncer, ela servirá só para curar o câncer em hamsters”. O efeito carcinogênico do cigarro é um caso clássico. Embora amplamente atestada por estudos epidemiológicos, a ligação entre câncer e tabaco seguiu sob suspeita por vários anos porque a doença não pôde ser reproduzida em animais. Por muito tempo, a indústria tabagista aproveitou o fato para negar o teor tóxico do seu produto.

“O uso de animais em laboratório é um recurso retórico. Usando diferentes espécies em projetos diferentes, os pesquisadores podem encontrar evidências que sustentam qualquer teoria”, diz Neal Barnard, presidente do Comitê Médico por uma Medicina Responsável, dos Estados Unidos. “No caso do cigarro, tanto as provas de que o tabaco é cancerígeno quanto as que asseguram sua inocência usaram animais como base.”

A crítica à suposta inutilidade dos testes em animais se estende às pesquisas de novas drogas. Apesar do enorme número de cobaias sacrificadas para testar a eficácia e os efeitos colaterais de novas substâncias, 95% dos fármacos aprovados em animais acabam descartados nos testes em voluntários humanos e não chegam ao mercado. Uma revisão realizada pelo governo americano nas drogas lançadas entre 1976 e 1985 revelou que 51,5% delas ofereciam riscos não previstos nos testes.

Vale também o raciocínio inverso: ao testar substâncias em animais, os cientistas poderiam descartar drogas promissoras para humanos só porque elas causaram mal a ratos ou porcos. A aspirina, por exemplo, causa deformidades nas crias de roedores, cães, gatos e macacos, embora para nós seja segura. Já a penicilina é fatal para o porquinho-da-índia.

A tese que valida a vivissecção surgiu no século XIX, quando o médico francês Claude Bernard começou a teorizar sobre a lógica científica do uso de cobaias. Ele defendia que todo conhecimento obtido em animais era válido para humanos. Hoje, poucos cientistas, mesmo os que se utilizam de vivissecção, sustentariam sua tese nua e crua. Mas a maioria crê que as diferenças entre humanos e não-humanos são superáveis. “Animais e homens são mais semelhantes que diferentes”, diz Marco Aurélio Amorim, coordenador da comissão de ética no uso de animais em laboratório da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Maria Helena Catelli de Carvalho, professora do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, concorda: “O projeto genoma mostrou que somos muito parecidos com ratos e camundongos”. E Alan Goldberg, do Johns Hopkins, completa: “Diferimos nos detalhes, mas somos parecidos o suficiente com animais para permitir paralelos.

Tomemos o caso da insulina, responsável por controlar o nível de açúcar no sangue. Ela cumpre essa função em várias espécies, além do homem”. Goldberg continua: “Em um animal, a insulina pode ser levemente diferente da insulina humana, mas é a mesma substância e tem as mesmas propriedades” .

O segundo round dessa disputa, ainda sobre a utilidade da vivissecção, diz respeito às conquistas da pesquisa biomédica, como vacinas e antibióticos. De acordo com a organização americana Fundação para a Pesquisa Médica, a evolução da expectativa de vida, que saltou de 47 anos, em 1900, para 75 anos, em 1985, nos Estados Unidos, deve-se a pesquisas com animais. Ou seja, os milhões de animais sacrificados salvaram milhões de vidas humanas. “O médico inglês William Harvey não teria feito suas famosas descobertas sobre a circulação do sangue em 1628 se não fosse por suas experiências com cervos”, escreve Deborah Rudacille em seu livro The Scalpel and the Butterfly (O bisturi e a borboleta, inédito no Brasil), sobre a história da vivissecção. E novas descobertas ocorrem a cada dia. Em Boston, vítimas de derrame recuperaram- se graças a injeções de células de feto de porco.

Os antivivisseccionistas acham esses resultados insuficientes para justificar o sacrifício de milhões de animais. Primeiro, eles duvidam do papel de vacinas, antibióticos e hipertensivos na evolução da saúde humana. Além disso, sustentam que a medicina tem muito menos bala na agulha para combater as doenças do que seus propagandistas querem fazer crer. Ou seja: os benefícios humanos, se existem, não compensam os custos animais.

Estudos realizados na Europa e nos Estados Unidos indicam que 90% dos fatores que determinariam a longevidade de uma pessoa devem-se ao estilo de vida, ao meio ambiente e à hereditariedade. Só 10% dependeriam da assistência médica (leia mais sobre isso em “A medicina doente”, capa da edição de maio da SUPER). Mas órgãos do governo americano que financiam pesquisas gastam em estudos com animais – ou seja, voltadas para o modelo biomédico – o dobro do que despendem em pesquisas em humanos.

Nessa guerra de argumentos, os antivivisseccionistas marcaram pontos importantes. Com publicidade agressiva, divulgaram imagens dos bichos estripados e atingiram a comunidade científica. Pesquisa realizada nos Estados Unidos por Scott Plous, da Wesleyan University, Connecticut, revelou que psicólogos graduados nos anos 90 têm metade da disposição em apoiar pesquisa com animais do que os titulados nos anos 70. Empresas com nomes associados à crueldade aboliram o teste de animais, temendo boicote dos consumidores. Muitas delas, após porem fim ao uso de cobaias, aproveitaram o fato como arma de marketing e adotaram um selo em seus produtos indicando que aboliram a vivissecção.

A mudança no mundo da ciência e das empresas acabou forjando um novo modelo para testes, hoje prevalente, que reconhece o sofrimento dos animais e se propõe a substituí-los por técnicas alternativas. Mas há ressalvas. Nos casos em que o bicho for considerado imprescindível, o máximo de alinhamento ético por parte dos cientistas é reduzir ao mínimo possível o sofrimento e a quantidade de cobaias.

Na esteira do novo modelo experimental, os métodos alternativos multiplicaram-se. Há hoje desde pele artificial a simulações de computador (leia quadro com exemplos nesta página). As ONGs que defendem o direito dos animais à vida sustentam que esses métodos podem substituir rigorosamente todos os testes com bichos.

A vitória dos ativistas, curiosamente, acabou resultando em ganhos de precisão e eficácia para a ciência. A redução do estresse e a padronização das condições do cativeiro reduziram o número de mortes de cobaias. E pesquisas recentes revelaram que barulho, manuseio, higiene e superlotação nos biotérios influenciam diretamente os resultados. “As cobras do Butantã passaram a produzir sete vezes mais veneno e a viver oito anos, em vez de um, depois que a coleta de veneno passou a ser feita com as serpentes anestesiadas”, diz Roberto Sogayar, do Instituto de Biociências da Unesp, em Botucatu, e ex-presidente da Comissão de Ética e Legislação do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal.

Muitos pesquisadores discordam frontalmente. “Os testes in vitro são úteis, mas continuam pobres perto da acurácia que há nos testes em organismos vivos”, diz a professora Zuleica Bruno Fortes, do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. “Além disso, certas substâncias só podem ser estudadas em um organismo vivo. Quando o animal morre, elas desaparecem. São procedimentos para os quais a vivissecção é imprescindível.” Sheila Moura, da Sociedade Fala Bicho, acredita que essa resistência esconde um dogma. “Muitos cientistas reconhecem que existem substitutos para os animais, mas ainda assim usam as cobaias por medo de que seu estudo seja questionado por não usar o método tradicional. Essa mentalidade precisa mudar.”

O segundo grande argumento antivivissecção é que não interessa se o uso de animais ajuda ou não a ciência: nós simplesmente não temos o direito de sacrificá-los. “A questão é moral. Se há um dilema em usar animais, então temos de buscar alternativas. Mas, se os usamos sob o argumento de que não há alternativas, então nunca vamos encontrá-las”, diz Rita Leal Paixão, professora do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal Fluminense, pesquisadora de ética aplicada e bioética da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Alguns exemplos corroboram suas palavras. Na Inglaterra, a proibição de usar animais para praticar microcirurgia levou à adoção de técnicas que usam placenta humana. Para o filósofo australiano Peter Singer, autor de Animal Liberation (Liberação dos animais, inédito no Brasil), um clássico sobre o assunto, há, sim, um problema ético em usar qualquer ser capaz de sentir dor.

A classificação dos seres em humanos e não-humanos, para Singer, configura “especismo”, uma discriminação que equivaleria ao racismo. “Há animais cujas vidas, por quaisquer critérios, são mais valiosos que as vidas de alguns seres humanos. Um chimpanzé ou um porco tem um grau mais alto de autoconsciência e uma maior capacidade de relações significativas do que uma criança com uma doença mental séria”, diz Singer. Ou seja: quem admite cortar um macaco em nome da ciência teria que admitir também cortar uma criança com paralisia cerebral, por exemplo. “Um dia, a experimentação animal será considerada tão absurda como hoje nos é a idéia do holocausto, da escravidão, da inquisição”, diz Sheila Moura, da Sociedade Fala Bicho. É ver para crer.





Para saber mais

Na livraria:
The Scalpel and the Butterfly, Deborah Rudacille, FSG, 2000

Animal Liberation, Peter Singer, Avon Books, 1999

A Verdadeira Face da Experimentação Animal, Sergio Greif e Thales Tréz, Sociedade Fala Bicho, 2000


Na internet
www.navs.org

www.fbresearch.org


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Portugal - Crise faz disparar abandono de animais de estimação


Não é preciso estar muito atento para perceber que aumentaram os animais errantes pelas ruas, e não é por ser verão. A crise está a empurrar para fora de casa os elos mais fracos: os amigos de quatro patas. Tal como acontece em Atenas, por cá é na Grande Lisboa que a situação é mais visível e preocupante.






Abandono de cães e gatos em crescendo preocupante

Os cortes nos gastos já estão a atingir os animais de estimação. À sombra da crise, milhares de animais de companhia são abandonados de norte a sul do país: nas ruas, entregues aos cuidados de associações ou depositados em canis municipais.

De acordo com os dados divulgados pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária só na Grande Lisboa a captura de animais errantes, cães e gatos, passou de 4442, em 2010, para 5629, em 2011. Um aumento considerável para quem está encarregue, não só, de tirar estes animais da rua, como de lhes dar um destino.

Os números deste ano ainda não estão disponíveis, naturalmente, mas os sinais de que a situação está em crescendo são evidentes, sobretudo quando a própria câmara da capital não só não está a fazer recolha, como tem o canil encerrado para obras, sem data para reabrir, como disse ao Expresso o vereador do Ambiente Urbano da Câmara Municipal de Lisboa, José Sá Fernandes, numa entrevista que pode ser vista num dos sete vídeos que acompanham este trabalho.

De lotação esgotada, a maioria das associações luta todos os dias para fazer face a um problema que cada vez mais caminha a par e passo com a crise. A falta de apoios, financeiros e alimentares, a diminuição do número de sócios e a falta de espaço para acolher tantos animais faz com que a vontade de ajudar seja incompatível com a realidade. Em tudo.

Mais animais, menos adoções: uma combinação preocupante
A balança mostra um desequilíbrio ainda maior quando o número de devoluções de animais se alia à indisponibilidade para adotar ou para adoções com prazo de validade, já que muitos animais são devolvidos ao fim de pouco tempo.

A insuficiente capacidade de resposta das associações aumenta com os pedidos de ajuda que chegam diariamente. A SOSAnimal, por exemplo, sediada há cerca de um ano em Caparide, fala de "30 a 40 pedidos de ajuda por semana" e de um baixo número de adoções, num ano que consideram estar a ser "muito crítico".

Às antigas razões apontadas para abandonar o amigo de quatro patas, como as alergias, os divórcios ou as férias de verão, junta-se agora a falta de dinheiro e a taxa de emigração que cresce com os problemas económicos do país. Tudo isto faz um cocktail onde, além do sofrimento dos animais, se alastra a problemas de saúde pública e até de segurança para as pessoas.

A Associação São Francisco de Assis, em Sintra, abriu as portas ao Expresso já que é outro exemplo do que está a acontecer: anualmente recolhe entre 350 a 400 animais, a ideia de "fechar portas" está, por enquanto, posta de parte, mas as dificuldades aumentaram e é cada vez mais difícil fazer face à situação.

Sobre isto, Maria João Pulido, uma das responsáveis por esta associação, salienta a "razoável" percentagem de animais que têm vindo a ser devolvidos e que agrava, não só o problema da falta de espaço, como dos meios de subsistência que se mostram diminutos.

Até nos veterinários são largados animais
Para quem o abandono do animal não é opção, o descuido dos cuidados veterinários deste começa, contudo, a ser uma inevitabilidade. São muitas as pessoas que pela sua fraca condição económica adiam os cuidados médicos do animal ou, no limite, acabam mesmo por se "esquecerem" de ir buscar o bicho após uma intervenção cirúrgica ou outro tipo de tratamento ambulatório.

A situação está de tal forma que a Ordem dos Médicos Veterinários disse ao Expresso que está a pensar numa forma legal de contornar esta situação. Resumindo: como podem os veterinários "desfazer-se" dos animais esquecidos nas clínicas, sem caírem na ilegalidade?

António Ferreira, médico e um dos responsáveis da Faculdade de Medicina Veterinária, diz ter uma ideia do que se passa nas clínicas - pelo feedback que recebe por parte dos colegas que exercem no privado - e explica que no Hospital Veterinário a situação não é tão grave, mas que já tem sinais claros dos efeitos da crise.

Este médico, que também ali é docente, não regista uma quebra das receitas hospitalares mas nota que as pessoas estão "mais retraídas" no momento de avançar para tratamentos mais dispendiosos.

"Não ao abandono dos animais" é insuficiente
Canis municipais, associações e entidades como a Ordem dos Médicos Veterinários, unem-se no apelo ao "não abandono dos animais".

Uma boa intenção, mas se o passado não resolveu o problema, muito menos agora conseguirá ter sucesso para travar o que está a acontecer. É que, como a crise não dá sinais de vir a passar nos próximos tempos, este é um problema que tende a agravar-se até ao ponto de atingir as proporções que tem neste momento a Grécia, como tão bem descreveu Clara Ferreira Alves na reportagem que fez em Atenas para o Expresso: "Os cães dormitam na sombra dos prédios e das igrejas, no vão das portas e das lojas, nas lajes das praças e monumentos. Dormitam e vagueiam, sem rumo, abandonados. São muitos. São demasiados."


Carlos Paes (infografia), Vanessa Sardinha (reportagem), André de Atayde e Fernando Pereira (vídeos)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Vira-lata, sim!

Cães e gatos sem raça definida são tão inteligentes quanto os que vêm com pedigree e até mais resistentes. Considere isso na hora de escolher o bichinho que vai levar para casa




O designer gráfico André Rodrigues encontrou o vira-lata Perrengue em uma feira de adoção na capital paulista há oito meses. "Adotar um cão é como ter um filho. Você precisa readaptar sua rotina, programar os passeios e ter autoridade com o bicho", diz o paulistano de 27 anos.




Eles estão longe de serem considerados puros, não possuem características marcantes que os diferenciem e nem se encaixam exatamente em padrões de beleza. A palavra que os classifica, associada ao hábito de revirar latas de lixo em busca de comida, aparece nos dicionários como um sinônimo de "sem classe, sem-vergonha". Mas os cães e gatos sem raça definida (SRD) driblaram a má fama. E foi-se o tempo em que eram deixados do lado de fora das casas e relegados ao segundo escalão dos amigos de quatro patas. Segundo levantamento feito pelo Instituto Datafolha, que entrevistou 613 donos de cães na cidade de São Paulo, apenas 26% dos pets foram comprados. Estima-se, portanto, que o restante não tenha pedigree ou raça definidos. No caso dos felinos, uma pesquisa encomendada pela Comissão de Animais de Companhia, que reúne empresas do setor veterinário, aponta que quase 80% dos gatos dos lares brasileiros também estão na categoria SRD. 

MENOS NOBREZA E MAIS ESPERTEZA? 
Cães e gatos mestiços são tidos como mais inteligentes que a maioria dos animais de raça. E um estudo feito pela Universidade de Aberdeen e Napier, na Escócia, vem colaborar com essa teoria. A pesquisa aplicou sete testes diferentes em um grupo de 80 cães. De acordo com os profissionais envolvidos, os vira-latas apresentaram melhor noção de espaço e resolveram problemas — como procurar ossos embaixo de latas — com mais facilidade do que os colegas com pedigree. Mas a avaliação não é unânime. Daniel Guimarães Gerardi, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, por exemplo, não se entusiasma: "Os vira-latas são tão inteligentes quanto qualquer outro animal. Esse desempenho independe da raça. Está mais ligado a habilidades específicas de cada bicho". 

O quesito comportamento é outra variante a ser considerada na hora de adotar um pet mestiço. Para quem acha que eles podem ser uma fonte de confusão, a opinião de Marcelo Quinzani, do Hospital Veterinário PetCare, de São Paulo, não deixa de ser uma surpresa: "Vira-latas, principalmente os que têm um histórico de vida na rua, são mais dóceis", ele afirma. "Isso se dá devido ao instinto de sobrevivência. Sendo mais amistosos, eles conquistam mais cuidados." E os espertinhos são tão aptos ao adestramento quanto qualquer outro animal de estimação. Ainda está em dúvida? Pensando que pode ser um perigo levar um doce filhote para casa e vê-lo crescer demais e virar um grande problema? Pois saiba que, prestando atenção em alguns detalhes, dá para ter uma pista do porte do amigo de quatro patas que se vai adotar. 

ATENÇÃO E CARINHO 
Animais que tiveram suas características selecionadas por reproduções programadas tendem a desenvolver problemas típicos daquela raça. No caso de cães e gatos vira-latas, não há um biótipo específico. Eles têm diferentes pelagens, tamanhos e características físicas proporcionados pelos cruzamentos ao acaso. "Essa variedade genética contribui para que esses animais se tornem menos predispostos a desenvolver determinadas doenças, como insuficiência renal e dermatites", teoriza Daniel Gerardi. A paulista Veridiana Ravizza, de 37 anos, ganhou o SRD Zeca de uma amiga. "Desde que adotei meu gato, minha alergia respiratória praticamente desapareceu", diz a editora de cinema. Mas vale o alerta: isso não significa que a imunidade seja total. Avaliar a aparência física do cachorro, por exemplo, é uma boa maneira de investigar se existe predisposição a algum mal. "Cães de grande porte podem ter problemas articulares, enquanto os de focinho achatado tendem a apresentar dificuldades respiratórias", ensina Marcelo Quinzani. 

Ou seja, vira-lata também é bicho — trate da saúde dele como faria com qualquer animal de sangue azul. A vacinação deve estar sempre em dia, prevenir o aparecimento de pulgas, carrapatos e vermes garante o bem-estar e check-ups periódicos vão ajudar a mantê-lo sempre saudável. Quanto à alimentação, nenhum segredo: as rações devem respeitar o porte e a idade do animal. No mais, passeio e carinho são mais que bem-vindos. 

Isso posto, se você encontrar um desses animais na rua e resolver adotá-lo, o melhor a fazer é levá-lo logo a um veterinário e mantê-lo isolado dos outros animais da casa por alguns dias. Esse período de observação é importante para perceber se o bichinho tem alguma doença ainda incubada em seu organismo. Depois de um mês de avaliação, o veterinário poderá dizer se seu novo companheiro está suficientemente saudável para tomar as vacinas de praxe. Vale lembrar: cachorros e gatos, uma vez por ano, devem receber uma dose para espantar o vírus da raiva. Os primeiros recebem ainda a vacina múltipla, a V10, que protege contra cinomose, adenovírus, parainfluenza, parvovírus, coranovírus e dois subtipos de leptospirose, além de ser imunizados contra a gripe canina. Já os felinos devem ser vacinados para evitar rinotraqueíte, panleucopenia, clamídea e vírus calicivírus.


por CLARA CIRINO design SUELY DANELON fotos OMAR PAIXÃO

sábado, 15 de setembro de 2012

Animais de estimação podem diminuir chances de bebês adoecerem, diz estudo


Pesquisa aponta que o contato com o animais de estimação ajuda no desenvolvimento imunológico do bebê

Além de alegrar e divertir a vida do bebê, animais podem ser grandes amigos também da saúde da criança. Segundo uma pesquisa publicada na revista "Pediatrics", crianças que crescem com gatos e cachorros em casa têm maiores chances de terem menos infecções respiratórias durante o primeiro ano de vida.

A pesquisa, conduzida na Finlândia, acompanhou 397 crianças desde a gestação até completarem um ano de idade. Foi notado que os bebês que possuíam gatos ou cachorros passaram menos tempo com infecções de ouvido, tosse ou nariz entupido: 31% deles tiveram menos infecções e sintomas de problemas respiratório e 44% tiveram menos infecções de ouvido e receberam 29% menos receitas de antibióticos.

Segundo o estudo, um dos fatores da contribuição desses animais para a saúde do bebê é o fortalecimento do sistema imunológico da criança, que ainda é fraco e em desenvolvimento durante o primeiro ano de vida. Como os cães ou gatos podem levar sujeira e germes para dentro da casa, isso faz com que gere um amadurecimento ainda mais rápido do sistema imunológico, melhorando as defesas contra vírus e bactérias do ambiente.

No entanto, mesmo com os aparentes benefícios trazidos pelos animais, há limites. O estudou também apurou que crianças que passam menos de seis horas diárias com um cachorro têm menos chances de adoecerem em relação as que possuem contato direto com o animal.

Com base nas anotações dos pais participantes do estudo, os pesquisadores notaram que as crianças sem contato com um cachorro, por exemplo, eram 65% do tempo saudáveis, enquanto aquelas que tinham maior contato com o animal estavam 76% do tempo sem doenças.