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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Portugal - Crise faz disparar abandono de animais de estimação


Não é preciso estar muito atento para perceber que aumentaram os animais errantes pelas ruas, e não é por ser verão. A crise está a empurrar para fora de casa os elos mais fracos: os amigos de quatro patas. Tal como acontece em Atenas, por cá é na Grande Lisboa que a situação é mais visível e preocupante.






Abandono de cães e gatos em crescendo preocupante

Os cortes nos gastos já estão a atingir os animais de estimação. À sombra da crise, milhares de animais de companhia são abandonados de norte a sul do país: nas ruas, entregues aos cuidados de associações ou depositados em canis municipais.

De acordo com os dados divulgados pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária só na Grande Lisboa a captura de animais errantes, cães e gatos, passou de 4442, em 2010, para 5629, em 2011. Um aumento considerável para quem está encarregue, não só, de tirar estes animais da rua, como de lhes dar um destino.

Os números deste ano ainda não estão disponíveis, naturalmente, mas os sinais de que a situação está em crescendo são evidentes, sobretudo quando a própria câmara da capital não só não está a fazer recolha, como tem o canil encerrado para obras, sem data para reabrir, como disse ao Expresso o vereador do Ambiente Urbano da Câmara Municipal de Lisboa, José Sá Fernandes, numa entrevista que pode ser vista num dos sete vídeos que acompanham este trabalho.

De lotação esgotada, a maioria das associações luta todos os dias para fazer face a um problema que cada vez mais caminha a par e passo com a crise. A falta de apoios, financeiros e alimentares, a diminuição do número de sócios e a falta de espaço para acolher tantos animais faz com que a vontade de ajudar seja incompatível com a realidade. Em tudo.

Mais animais, menos adoções: uma combinação preocupante
A balança mostra um desequilíbrio ainda maior quando o número de devoluções de animais se alia à indisponibilidade para adotar ou para adoções com prazo de validade, já que muitos animais são devolvidos ao fim de pouco tempo.

A insuficiente capacidade de resposta das associações aumenta com os pedidos de ajuda que chegam diariamente. A SOSAnimal, por exemplo, sediada há cerca de um ano em Caparide, fala de "30 a 40 pedidos de ajuda por semana" e de um baixo número de adoções, num ano que consideram estar a ser "muito crítico".

Às antigas razões apontadas para abandonar o amigo de quatro patas, como as alergias, os divórcios ou as férias de verão, junta-se agora a falta de dinheiro e a taxa de emigração que cresce com os problemas económicos do país. Tudo isto faz um cocktail onde, além do sofrimento dos animais, se alastra a problemas de saúde pública e até de segurança para as pessoas.

A Associação São Francisco de Assis, em Sintra, abriu as portas ao Expresso já que é outro exemplo do que está a acontecer: anualmente recolhe entre 350 a 400 animais, a ideia de "fechar portas" está, por enquanto, posta de parte, mas as dificuldades aumentaram e é cada vez mais difícil fazer face à situação.

Sobre isto, Maria João Pulido, uma das responsáveis por esta associação, salienta a "razoável" percentagem de animais que têm vindo a ser devolvidos e que agrava, não só o problema da falta de espaço, como dos meios de subsistência que se mostram diminutos.

Até nos veterinários são largados animais
Para quem o abandono do animal não é opção, o descuido dos cuidados veterinários deste começa, contudo, a ser uma inevitabilidade. São muitas as pessoas que pela sua fraca condição económica adiam os cuidados médicos do animal ou, no limite, acabam mesmo por se "esquecerem" de ir buscar o bicho após uma intervenção cirúrgica ou outro tipo de tratamento ambulatório.

A situação está de tal forma que a Ordem dos Médicos Veterinários disse ao Expresso que está a pensar numa forma legal de contornar esta situação. Resumindo: como podem os veterinários "desfazer-se" dos animais esquecidos nas clínicas, sem caírem na ilegalidade?

António Ferreira, médico e um dos responsáveis da Faculdade de Medicina Veterinária, diz ter uma ideia do que se passa nas clínicas - pelo feedback que recebe por parte dos colegas que exercem no privado - e explica que no Hospital Veterinário a situação não é tão grave, mas que já tem sinais claros dos efeitos da crise.

Este médico, que também ali é docente, não regista uma quebra das receitas hospitalares mas nota que as pessoas estão "mais retraídas" no momento de avançar para tratamentos mais dispendiosos.

"Não ao abandono dos animais" é insuficiente
Canis municipais, associações e entidades como a Ordem dos Médicos Veterinários, unem-se no apelo ao "não abandono dos animais".

Uma boa intenção, mas se o passado não resolveu o problema, muito menos agora conseguirá ter sucesso para travar o que está a acontecer. É que, como a crise não dá sinais de vir a passar nos próximos tempos, este é um problema que tende a agravar-se até ao ponto de atingir as proporções que tem neste momento a Grécia, como tão bem descreveu Clara Ferreira Alves na reportagem que fez em Atenas para o Expresso: "Os cães dormitam na sombra dos prédios e das igrejas, no vão das portas e das lojas, nas lajes das praças e monumentos. Dormitam e vagueiam, sem rumo, abandonados. São muitos. São demasiados."


Carlos Paes (infografia), Vanessa Sardinha (reportagem), André de Atayde e Fernando Pereira (vídeos)